segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

        Enquanto caminhava pela longa ponte acima do lago, Helena mantinha a cabeça cabisbaixa e se concentrava nas velhas madeiras sob seus pés. A ponte, judiada pelos anos, rangia alto sob cada passo. Apesar de sua aparência frágil, a ponte resistia, enquanto Helena caminhava pelo enorme lago.
            O vento de Outono batia nas árvores que circundavam o lago, e o burburinho das folhas chiava nos ouvidos de Helena. Enquanto o vento ululava por seu velho vestido de algodão, Helena sentia esse mesmo vento gélido bater em seu rosto e, apesar do frio que sentia, estava feliz por estar ali.
            Conforme ia avançado pela ponte, o centro do grande lago ia se aproximando, e com ele, a sensação de estar ilhada por uma imensidão negra. O vento, agora, batia feroz na folhagem à volta, e a sensação de estar cercada por uma multidão à espreita a invadiu. Sacudindo levemente a cabeça para afastar esses pensamentos, ela continuou sua caminhada.
            A paisagem em volta era bela, um colírio para seus olhos cansados. O imenso lago em que se encontrava era cercado por altas árvores, nogueiras cheias de folhas douradas. Uma neblina suave, corriqueira do Outono, pairava sobre o lago e o cenário transmitia uma sensação de momento, de lugar certo.
            Enfim, Helena chegou ao fim da ponte. Ela acabava abruptamente em meio ao lago, como se alguém tivesse se esquecido de termina-la. No final da ponte, Helena parou e olhou a sua volta, para a bela imagem que se formava. Voltou seu olhar para o imenso lago a sua frente e lembrou o quanto sonhava, ao crescer, em aprender a nadar, mas nunca aconteceu. Sorriu ao pensar na mãe, sempre lhe dizendo sobre os perigos da água.

            O vento bateu novamente em seu rosto, ela fechou os olhos e afastou a imagem da mãe da mente. Pensou em respirar fundo, mas se deteve, afinal esse não era o objetivo. Então, pulou nas águas geladas.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

          Eu tenho um lago, só meu. Ele me acalma. Sempre acalmou. Sua superfície plana, lisa. Alheio aos tormentos do mundo, da corrida frenética dos atarefados, dos prazos e responsabilidades. O vento era sua única preocupação, a chuva sua fonte. Posso-me sentar aqui por horas a olhá-lo. Quantos anos se passaram e aqui está ele, intocado, belo, algo raro em dias como os de hoje. Dias que o homem em tudo toca. Nunca tive coragem de tocá-lo, parece-me um sacrilégio. Algo tão puro, sombrio, deve permanecer como tal.
            O vento lambe sua superfície, criando pequenas ondulações que percorrem a capa escura que o encobre. Negro como a noite, ele guarda segredos infindáveis. De certo já viu muito, sabe muito. Ou talvez não, por isso é belo, puro. Quando criança, costumava vir sempre até sua margem, admirar meu reflexo, ou tentar enxergar algo além de sua superfície, em vão, é claro.
            Agora, com as tormentas de minha alma, o contraste com algo tão tranquilo perece cômico. Queria que minha mente fosse como aquele lago, sereno, calmo. O redemoinho que preenche a minha psique, por vezes, se apazigua diante de sua superfície.  Talvez seja o conjunto de coisas que o envolve: sua imagem serena, a ideia que ele transmite, o vento que o cerca e toca o meu rosto ou a floresta densa ao redor de suas margens. Todo esse cenário parece perfeito. Um lugar inócuo. Por isso venho para cá. Aqui é meu refúgio, meu lugar de paz. Quando não estou salva nem mesmo de mim, procuro abrigo sob seu reflexo. Nem sempre consigo fugir das tormentas que me habitam, mas ele torna tudo um pouco mais fácil. E é apenas meu, meu lago negro.