Eu tenho um lago, só meu. Ele me acalma. Sempre acalmou. Sua superfície plana, lisa.
Alheio aos tormentos do mundo, da corrida frenética dos atarefados, dos prazos
e responsabilidades. O vento era sua única preocupação, a chuva sua fonte. Posso-me sentar aqui por horas a olhá-lo. Quantos anos se passaram e aqui está ele,
intocado, belo, algo raro em dias como os de hoje. Dias que o homem em tudo
toca. Nunca tive coragem de tocá-lo, parece-me um sacrilégio. Algo tão puro,
sombrio, deve permanecer como tal.
O vento
lambe sua superfície, criando pequenas ondulações que percorrem a capa escura
que o encobre. Negro como a noite, ele guarda segredos infindáveis. De certo já
viu muito, sabe muito. Ou talvez não, por isso é belo, puro. Quando criança,
costumava vir sempre até sua margem, admirar meu reflexo, ou tentar enxergar
algo além de sua superfície, em vão, é claro.
Agora, com
as tormentas de minha alma, o contraste com algo tão tranquilo perece cômico.
Queria que minha mente fosse como aquele lago, sereno, calmo. O redemoinho que
preenche a minha psique, por vezes, se apazigua diante de sua superfície. Talvez seja o conjunto de coisas que o
envolve: sua imagem serena, a ideia que ele transmite, o vento que o cerca e
toca o meu rosto ou a floresta densa ao redor de suas margens. Todo esse
cenário parece perfeito. Um lugar inócuo. Por isso venho para cá. Aqui é meu
refúgio, meu lugar de paz. Quando não estou salva nem mesmo de mim, procuro
abrigo sob seu reflexo. Nem sempre consigo fugir das tormentas que me habitam,
mas ele torna tudo um pouco mais fácil. E é apenas meu, meu lago negro.
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